terça-feira, 1 de dezembro de 2015

voz-muda.

crianças são fascinantes pela sua descoberta do mundo e pela capacidade de desordená-lo através da reunião de elementos que a princípio não teriam uma possibilidade de coerência ao serem colocados em uma série. na conversa com a criança, as diferenças e os paradoxos do mundo vão se atualizando. 
no primeiro contato que tive com um menino recentemente, ele me indaga:
- por que tu tem uma voz muda?
entre a surpresa, a defesa, e a convocação à elaboração de uma resposta:
- voz muda? mas como ela pode ser muda se tu consegue me ouvir?
tentamos seguir conversando, e eu tentando explicar sobre as diferentes vozes e seu tons, ao que o menino conclui:
- então, tu tá falando inglês.

!

elementary, my dear watson.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

quando foi que nos tornamos o que a gente era?

É do tempo que se trata. Sempre insistindo e avançando em direção à nossa morte em vida. Porque ser aprisionado em vida é morrer aos poucos. Se há algo de brilhante na morte dos jovens é o futuro que poderia ser, mas não foi, não é, não será. É nesse espaço sem fim de um fim que reside toda a beleza de uma vida que poderia ter sido. A morte de um jovem não é pior que a morte de uma pessoa velha. São de vidas que se tratam. Vidas não são mensuráveis, logo não comparáveis.

Essa vida que vai sendo, que vamos levando, qual sua graça? Efêmera, e por ela tudo passa; sobretudo pessoas e suas regras. Apesar de todo esse movimento, uma previsibilidade impossível de ser realizada no passado; mas num só depois totalmente realizado dando aquele feeling de já sabia, dejavu. O ser humano é um dos seres mais previsíveis-imprevisíveis existentes. Prevísivel por ele criar com o que, a partir do que lhe é ofertado. Imprevísivel por se tratar de criação.

A brilhosidade de Revolutionary Road (Foi apenas um sonho) é reluzente. Ela e Ele se conhecem, interessam-se um pelo outro. Os passos seguintes (namorar, casar, e ter filhos) são dados por eles. Porém, a loucura da normalidade de como nossa vida vai entrando nos padrões que lhe são im-postos é elucidada por um louco que afirma que eles não eram um casal comum. Enquanto planejavam a viagem em outra cidade, Paris, que os permitiria mudar de perspectiva alguns imprevistos vão acontecendo: ela engravida, ele passa a ser reconhecido no trabalho, o que o faz desistir da viagem a Paris. A viagem acaba não acontecendo, e os eventos vão afirmando a incomunidade daquele casal. Imprevistos acontecem, mas nosso modo de lidar com o que vai nos surpreendendo em vida também é imprevísivel? Mesmo que os eventos sejam de fato colocados no concreto no futuro, nosso padrão de lidar com as coisas está sempre presente? Embaralhando os tempos, quando foi o instante que nos tornou o que somos?

Juntamente com as cartas que são dadas, ganhamos a oportunidade de jogar. Escolher os movimentos, ainda que presos à algumas convenções. Dos encontros que aconteceram em um passado ao transcorrer do tempo com suas expectativas e cobranças, demandando que digamos a que viemos. Mas, a casa noturna não é mais a mesma; mudaram os garçons, mudaram as pessoas que a frequentavam, ficou o saudosismo daquela época em que se podia chamar de minha. O bar ponto de encontro semanal fechou com previsão de uma mudança, nunca realizada. Assim e assado, conforme manda o figurino as vidas foram se fazendo. Não é do nada que nos inventamos. Não é do nada que surgimos, embora seja para o nada que iremos. Se vasculhar os arquivos do passado nos permite acessar alguns restos que nos compõem, por que não radicalizarmos e tornarmos outros que não os que somos destinados a ser?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

fotógrafo-cartógrafo.

sobre devir-animal e se fazer cartógrafo no encontro com o(s) acontecimento(s).
Quem não gosta de esperar não pode ser fotógrafo. Em 2004 cheguei a ilha Isabela, em Galápos, aos pés de um belíssimo vulcão chamado Alcedo. Deparei-me com uma tartaruga gigante, enorme, de no mínimo duzentos quilos, da espécie que deu nome ao arquipélago. Cada vez que me aproximava, a tartaruga se afastava. Ela não era rápida, mas eu não conseguia fotografá-la. Então refleti e pensei comigo mesmo: quando fotografo seres humanos, nunca chego de surpresa ou incógnito a uma grupo, sempre me apresento. Depois me dirijo às pessoas, explico, converso e, aos poucos, nos conhecemos. Percebi que, da mesma forma, o único meio de conseguir fotografar aquela tartaruga seria conhecendo-a; eu precisava me adaptar a ela. Então me fiz tartaruga: fiquei agachado e comecei a caminhar na mesma altura que ela, com palmas e coelhos no chão. A tartaruga parou de fugir. E quando se deteve, fiz um movimento para trás. Ela avançou na minha direção, eu recuei. Esperei um momento e depois me aproximei, um pouco, devagar. A tartaruga deu mais um passo na minha direção e , imediatamente, dei mais alguns para trás. Então ela veio até mim e se deixou observar tranquilamente. Foi quando pude começar a fotografá-la. Levei um dia inteiro para me aproximar dessa tartaruga. Um dia inteiro para fazê-la compreender que eu respeitava seu território.

Em: Salgado, Sebastião. Da minha terra à terra. Sebastião Salgado com Isabella Francq. São Paulo: Paralela, 2004.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

foucault.

Finalizei a leitura de Michel Foucault - Uma biografia do Didier Eribon e a intensidade das vidas que se entrecruzaram e se entrecruzam persiste em me acompanhar. Foucault psicólogo, Foucault filósofo. Foucault que encontra Kant, Freud, Hegel, Nietzsche, Bataille, Blanchot, e tantos outros pensadores. Encontra ainda em seu cotidiano pessoas como Georges Canguilhem, Gilles Deleuze, Jacques Rancière, George Dumézil, Pierre Bourdieu, entre tantos outros intelectuais franceses. Nesse cenário, que também é político, relações se fizeram e desfizeram, fazem e desfazem. 

Segundo Didier Eribon, jovem Foucault com questões sobre a vida e sobre o suicídio. Jovem Foucault que discutia vorazmente com seus colegas, xingava-os. Jovem Foucault que gostava de aplicar o Rorschach nos calouros. Professor Foucault que em suas aulas esmiuçava seus conteúdos, discutia com e através de fenomenologia, marxismo, psicanálise. Foucault que questionava-se se era analisável. Professor Foucault, que frente a irrupção de uma música pop durante sua aula de 1º de fevereiro de 1984 durante o curso A coragem da verdade, brinca: "Acho que você se enganou. Ao menos é Michael Jackson? Azar."

Seu pensamento foi se produzindo, afetou e foi se afetando na produção de um legado do qual somos herdeiros. A obviedade de um encanto com ele se esvai no encontro com outras pessoas que de sua obra pouco conseguem extrair. Talvez pelo pouco partilhamento do modo como Foucault colocava suas indagações, bem como seu fluxo de pensamento. Um pensamento em constante mutação, sofrendo as interpelações do vivido e transformando-as em vivo, num constante virar outro. Foucault se fazendo nos desvios que viver implica. Sua genialidade encontra-se não só na maneira de conduzir suas problemáticas, seu exaustivo trabalho e delicadeza com os materiais que tinhas disponíveis, mas também em algo muito raro, sua humildade. Sua produção: d'As palavras e as coisas à História da Loucura (e suas relações com o saber médico que também aparecem em O Nascimento da Clínica), passando por Vigiar e punir, passando pela biopolítica, chegando enfim e nesse fim, por sua finitude, à sexualidade e em um retorno aos gregos. Sendo estratégico, nos convidando a sermos estratégicos.

Um intenso admirador do que fizeste enquanto obra enquanto viveu e que segue existindo, cogito a pensar que se um dia tivéssemos nos encontrado, sua energia, sua determinação, sua coragem de verdade me amedrontariam, por afirmar um modo de ser e de combater com outros sujeitos, e assujeitados nessa trama de jogos de verdades a que nos encontramos e sustentamos. Ao mesmo tempo, tão intensas eram suas relações, em que a amizade figurava-se como uma possibilidade primeira, com sua estima e apreço pelos queridos.

Seu constante viajar, a trabalho, por trabalho, por questões de viver. Estiveste no Brasil tantas vezes, recusou-se a voltar aqui frente a situação em que nos encontrávamos, uma ditadura militar, que tentou proibí-lo de falar o que ele tinha a dizer. Suas idas aos Estados Unidos, e às possibilidades de existência que encontraste lá, contrastam com seu ingresso no Collége de France e sua intensa demanda de trabalho. É num auge que sua morte se faz, e demonstra-se abrupta. O que uma biografia deixou ecoando é a rapidez com que isso ocorreu. Qual o destino dos livros que tinhas programado e que seriam lançados posteriormente? A interrupção do fluxo do pensar, marcada pela finitude do corpo, remete-nos a morte em vida, quando nos é tirada a possibilidade de pensar. Seu pensamento, uma boa herança nos permite fazer algo com ela. Reinventarmos com aquilo que recebemos.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Let's play.

Alice took up the fan and gloves, and, as the hall was very hot, she kept fanning herself all the time she went on talking: 'Dear, dear! How queer everything is to-day! And yesterday things went on just as usual. I wonder if I've been changed in the night? Let me think: was I the same when I got up this morning? I almost think I can remember feeling a little different. But if I'm not the same, the next question is, Who in the world am I? Ah, that's the great puzzle!' And she began thinking over all the children she knew that were of the same age as herself, to see if she could have been changed for any of them.

Carroll, Lewis. Alice's Adventures in Wonderland. Peguin Popular Classics.

sábado, 10 de maio de 2014

ARTePOP, a Lei de Gaga.

Se ela emerge na ordem do discurso das divas da música pop com The Fame, em Born this Way Lady Gaga deixa claro que não é só mais uma loira nos convidando para apenas dançar, mas que veio para fazer arte, bagunçar e tirar as coisas da ordem, estabelecer a diferença. Para falar de uma traição à qual estava sofrendo, retira Judas da Bíblia. Durante a transição do The Fame Monster para o Born this Way chovem referências ao cristianismo, o que imediatamente colocava a cantora entre polêmicas, ao mesmo tempo em que ela afirma a dificuldade de se desvincular de algo que era/é parte dela e de todos que vivemos nesse mundo marcado pelo pensamento cristão. Porém, ela vai além nos afirmando que é possível inventar outros modos de vida mesmo com isso que nos é ofertado. Explorando os limites e utilidades do corpo, faz intervenções no seu próprio durante o período que lança Born This Way. Lady Gaga vai, ainda, bagunçar os limites da divisão de gênero, circulando como Joe Calderone por um período. 

As baixas vendas de seu mais recente álbum ArtPop, bem como a não-lotação dos shows aqui no Brasil, faz muitas pessoas equivalerem isso a um sinal de fracasso. Porém, há que se perguntar se os números (incluindo o dinheiro) podem ser as medidas do sucesso ou da genialidade de um artista. O mercado tem suas regularidades, o que é rentável, o que fará sucesso e nesse jogo muitos se inserem e jogam-no. Nessas mercadorias, normas de modos de ser são vendidas e compradas por todos aqueles que acessam a música, o programa televisivo, as novelas, entre outros. E se a Lady Gaga fracassa é por não entrar na fórmula do que é vendível.

Em sua passagem pelo Brasil, pude ver, ouvir, e sentir no show de Gaga em Porto Alegre algo que é da ordem do estranhamento. Estranhar por muitas vezes não entender o que ela quer apresentar, o que por sua vez me faz pensar no caráter sensível da cognição. Misturando conceito e imagens, ela perturba. Lembro não entender porquê tantas referências a quando ela era uma pequena menina de New York durante o show, nem ao fato de ela se colocar como a Mother Monster(mãe) de seus Little Monsters(seus fãs), muito menos suas constantes afirmações de que vive por/para/com sua arte.

No entanto, impossível não entender do que se trata quando se fala de Lady Gaga depois de percorrer seu trabalho. Semana passada, sua turnê ArtRave estreou e conseguiu tirar minutos de minha atenção na procura pelas imagens do show. Referências à arte não faltam, misturando conceito, dança, vídeo, moda, entre outros, estamos vivendo um espetáculo. Lady Gaga é fruto de nosso tempo imagético, não sendo apenas uma cantora. Se quisermos, podemos atribuir a ela uma revolução no modo de fazer videoclipes, já que são frequentes seus videos que extrapolam os limites de uma música, bem como são marcados por uma história/narrativa, sempre aberta aos múltiplos sentidos.

Já perdi a conta de quantas vezes já assisti o vídeo de G.U.Y. Como sempre na primeira vez só foi possível estranhar e não compreender. Entre os significantes que vão se sucedendo na tela, as aberturas aos múltiplos sentidos me conquistaram. Como em outras músicas do álbum, Lady Gaga faz referência (e não reverência!) à mitologia grega, mistura passado e presente querendo fazer um futuro diferente. Frente às duras pedras do mundo adulto, Lady Gaga ao "fazer arte" mostra a vivacidade da criança que a habita, o que podemos ver em suas postagens no instagram em que ela brinca com uma boneca que imita Venus enquanto sua música toca ao fundo.

Falando com os fãs em um show, Lady Gaga diz que eles estariam fazendo uma revolução ao afirmar seus modos de ser, sempre diversos e passíveis de estranhamento. É aí que consigo enxergar toda a potência estética que interpela a política, nosso modo de estarmos em relações uns com os outros. Lady Gaga é uma profana. Profana o sagrado, aquilo que não deve ser tirado do lugar. Com o que nos é dado (e às vezes imposto) por pertencermos à humanidade, outras expressões vão ganhando formas em suas obras. Com os restos arqueológicos, Lady Gaga vai inventando a vida. Que possamos fazer o mesmo em nosso cotidiano!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

É possível ser feliz sozinho? - Parte II


A experiência de reler algo escrito há um tempo atrás sempre traz um misto de constrangimento e diversão. Colocar em evidência que deixamos de ser quem éramos e ao mesmo tempo perceber que algumas coisas seguem exatamente iguais. Ter que responder a terrível pergunta se é possível ser feliz sozinho é algo que continuo me dispondo a tentar responder. Lembro que aquela pergunta vinha de uma novela que tinha como tema Wave do Tom Jobim como tema de abertura. "Vou te contar / os olhos já não podem ver / coisas que só o coração pode entender / fundamental é mesmo o amor / é impossível ser feliz sozinho." 

O texto anterior briga na verdade com o ideal de que somente uma pessoa nos completará. Encontrando-a temos nosso feliz para sempre. Podemos achar uma bobagem, uma ficção, uma invenção, mas é algo que está tão enraízado em nossa cultura e nos subjetiva sem que conseguimos ter noção disso, o que é possível de ser observado na monogamia como único modo de relação amorosa e sexual possível. Se você escapa a essa modalidade, os estranhamentos e as perguntas insistirão em te atormentar: qual seu defeito? qual a sua falha? Michel Foucault, em uma entrevista intitulada de Amizade como modo de vida, fala que as relações homossexuais podem possibilitar outro modo de se relacionar, por não estarem tão bem codificadas como as relações entre homem e mulher estão, embora existam muitos gays que querem uma relação nesses moldes tão bem estruturados. A meu ver, essa é mais uma evidência de como o amor a uma única pessoa que nos completará é tão forte. 

Anos depois, hoje, tenho outra posição: é impossível ser feliz sozinho! Logo eu tão desafeito a lógicas de pensamento que naturalizam o ser humano como um ser social, que prescinde de outros. O tempo que separa essa escrita da anterior me ensinou que o lugar do outro em nós é vital. Encontrei pessoas que alegraram e engrandeceram muito meu viver, e outras tantas que me entristeceram e fizeram-me sentir a menor das criaturas. No entanto, as dores dos desencontros são pequenas frente ao sentimento de estar solitário em uma situação, sem poder compartilhá-la. 

Somos subjetivados a acreditar que o porto seguro está somente em uma pessoa, mas, em nossos barcos, navegamos. Ancoramos em diferentes portos, de modo que podemos encontrar diferentes pessoas que nos acolham sob diferentes perspectivas. Inclusive em um relacionamento a dois que não necessariamente nos convoque a uma entrega total. "O resto é mar. É tudo que não sei contar".

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

É possível ser feliz sozinho? - Parte I

Redação escrita nos idos tempos de vestibulando, datada de 23 de abril de 2007, que tentava responder à pergunta:É possível ser feliz sozinho?

Embora sejamos educados desde a infância que precisamos encontrar uma pessoa que nos complete para sermos feliz, é possível ser feliz sozinho. Podemos comparar o ser humano a uma árvore, em que a vida amorosa é uma das raízes que a sustenta.

Juntamente com a vida amorosa, há outras raízes que sustentam a vida de um ser humano: trabalho, religião, família e amigos. Cada uma dessas raízes se complementa e propicia uma vida plena e feliz. O que acontece é que muitas pessoas dedicam-se apenas a uma dessas raízes, e, quando ocorre uma decepção por parte dela a vida dessa pessoa vai pelos ares. Se as demais raízes estão bem no momento em que uma sofrer uma crise, as outras estão firmes e fortes, compensando uma possível decepção por parte de uma raiz. Viver sozinho é possível porque a felicidade também é influenciada por outros fatores. Ainda com o exemplo da árvore, se colocarmos todo o peso dela sob uma única raiz e após isso cortamos esta, a arvore cairá. Porém se distribuirmos o peso entre todas as raízes, ao cortamos uma, as outras estarão compensando o corte. No ser humano, uma possível frustração.

Portanto, é possível ser feliz sozinho pois encontrar alguém não é sinônimo de felicidade. A felicidade é a soma de diversos fatores, dentre os quais a vida amorosa é somente um. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Você quer escutar sobre as diferentes perdas auditivas?

Desde 2001, o dia 26 de setembro foi instituído como o Dia Nacional do Deficiente Auditivo e do Surdo. Eu, que possuo uma perda auditiva, fiquei sabendo da existência desse dia neste ano, doze anos após a promulgação da lei. Porém, para além de um dia para o deficiente auditivo é preciso pensar em como são seus dias.

Quando criança o volume alto da televisão ecoou em meus pais, dizendo que algo estava diferente. Percorrendo por médicos e fonoaudiólogos, o diagnóstico de uma perda auditiva. Depois do choque da notícia, a possibilidade de uso de uma prótese auditiva que permitiria ser uma criança “normal” e ouvir como todos os outros. Porém, não seria assim. Primeiro porque ninguém escuta da mesma maneira por mais que o som seja o mesmo. Segundo, os aparelhos auditivos implicariam uma série de cuidados. Um deles diz respeito a água, já que se ele molhasse poderia deixar de funcionar. As brincadeiras infantis de encher um balão com água e jogar nos amigos colocavam-me duas opções: tirar o aparelho e ter uma certa dificuldade para ouvir meus amigos ou deixar de brincar com a água. Dia chuvoso? Cuidado redobrado! Banho? Sempre lembrar de tirar o aparelho antes de ir para o chuveiro, e ouvir o som da água encontrando o chão em uma intensidade menor... O barulho do mar? Para escutá-lo, com aparelho. Entrar na água, tirar o aparelho. Para dormir, outro drama. Tiro meus aparelhos para descansar. Descansar? Ok, e se alguém me chamar no meio da noite e eu não puder ajudar por não ter ouvido?

Sempre andar com pilhas no bolso, outro hábito necessário. Até é possível prever quando a pilha acaba, mas como qualquer ser humano, esquecemos, nos enganamos. Estar em uma festa ou evento social e a pilha acabar, e você não ter nenhuma para trocar? Só invocando a presença das divindades! Se perder a possibilidade de acompanhar as conversas que ocorrem durante já é ruim, deixar de conhecer pessoas interessantes com medo de não escutar o que elas falarão e não querer fazer a pessoa repetir a todo momento o que ela acabou de dizer é péssimo. E existe coisa melhor que uma cantada sussurrada ao pé do ouvido? Chato é quando você não escuta, e a coisa perde a espontaneidade ao pedir que a pessoa repita. Quem convive comigo, acaba tendo que se habituar aos constantes "quê?".

Se falar ao telefone é um drama para muitos, não poder fazer leitura labial só o aumenta. Na verdade, irritante é ser chamado de senhora por atendentes de telemarketing por conta da voz anasalada, já que o processo fala/escuta estão intrinsecamente associados. E isso não separa do contexto social e cultural que estamos inseridos! Dá vontade de gritar com a pessoa do outro lado da linha dizendo que com todo respeito, senhora é a mãe dele! Do mesmo modo, certas brincadeiras que acontecem desde a infância entristecem. Se alguém não ouve alguma coisa, “empresta teus aparelhos para o fulano”. Uma fala situada entre a linha tênue da brincadeira que proporciona leveza ao fato de não ouvir “como todo mundo”, ao mesmo tempo em que se reforça esse lugar...

Se relato esses pequenos eventos cotidianos, não é para me queixar de minha condição, mas sim de como ela marca e produz um modo de viver que não é só meu, mas de todas as pessoas que possuem uma perda auditiva e precisam fazer uso de próteses. E na hora de procurar emprego, a dúvida sempre emerge: sou deficiente ou não? Com a prótese, consigo levar uma vida “normal”. Sem a prótese, as palavras começam a ser engolidas, “falando para dentro”, a vontade de interagir com as pessoas diminui... Embora haja uma política pública de inclusão que força a efetivação da inclusão, como ela é realizada no cotidiano escapa aos diferentes governos. Se o Estado e a sociedade civil precisaram pensar na inclusão, agora eles precisam pensar as diferenças. Fugindo da busca de um normal ideal, no encontro com a realidade, vemos as diferenças. Seja nos graus de perda auditiva que variam de 0 a 100%, seja nos modos de como cada um de nós escuta o que chega aos nossos ouvidos. Entre 0 e 100%, existem infinitas possibilidades numéricas, assim como são infinitas as possibilidades de existência.

Todos somos deficientes em alguma medida. Às vezes, ela está inscrita em nosso corpo. Se não possuímos alguma deficiência, isso é motivo para se (pré)ocupar. Como diria a sabedoria popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Se por vezes olha-se para alguém com uma perda auditiva como um surdo, é preciso compreender que existem diferentes graus de perda auditiva desde a surdez até uma perda auditiva leve. E isso virará uma norma em nossa sociedade contemporânea, que tem abusado dos fones de ouvido, ocasionando perdas auditivas nas mais diferentes faixas etárias.

Se temos avançado nas políticas de inclusão às diferentes necessidades especiais, precisamos pensar nas diferenças existentes nas necessidades especiais que cada um de nós precisa. É recorrente a pergunta se sei falar libras por possuir uma perda auditiva, minha resposta é sempre não, porque sou ouvinte. Porém, talvez eu precise aprender a me comunicar nessa linguagem, como tenho aprendido a língua inglesa, pois posso perder a oportunidade de conhecer pessoas bem legais e interessantes que somente se expressam por essa via.

Possuir uma perda auditiva e fazer uso de prótese não é ruim, é diferente. Uma vez após comer um biscoito da sorte chinês, recebi a seguinte frase: “Os olhos acreditam em si próprios, os ouvidos acreditam em outros”. Ser humano é estar em relação ao outro, e quando esse outro nos coloca em alguns lugares podemos ter os limites de nossa existência bem restritos. Se a tecnologia tem avançado e aprimorado cada vez mais os aparelhos auditivos, o acesso a essa tecnologia também deve ser efetivar desde as diferentes políticas públicas. Do mesmo modo, em nosso cotidiano ao encontrarmos alguém com uma necessidade especial, seja ela auditiva, visual, física, é preciso perguntar à pessoa como ela quer ser tratada. Afinal, é somente no encontro com o deficiente que podemos transpor nossas deficiências, pensando e sendo diferente juntamente com ele.

Para mais textos sobre a temática da Deficiência Auditiva, a Paula Pfeifer tem um blog excelente. É o Crônicas da Surdez, confiram clicando aqui.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Terra, águas, e o fogo.

São Luís, Julho de 2012. No táxi que levaria ao aeroporto, um diálogo com o taxista que não terminou. O assunto? O mesmo de sempre. Turistas? De onde? Gostaram daqui? Seguido de dicas sobre como a cidade poderia ser melhor aproveitada, seja por quem a habita, seja pelos turistas que a ela se dirigem. Porém, foram outras palavras proferidas por aquele senhor que transpassaram um peito que já aberto se encontrava. Delas, não lembro com exatidão. Faziam referencia a filha do taxista que decidiu vir para o Rio Grande do Sul morar, estudar, amar, desejar... "Fazer o que se ela quis assim, né?" - foi como aquele pai marcou essas linhas que diferentes vidas tratam de escrever.

Da dor de uma partida de um pai ao Rio Grande do Sul, próximo da filha, uma pergunta invade o passageiro: o que faz uma pessoa, como a filha, sair do conforto de um lar e ir para longe dos seus? Onde ela encontrará a segurança que uma casa oferece? Cortar raízes para poder locomover-se, ao mesmo tempo em que as raízes fizeram (e fazem) uma árvore se sustentar. Romper com o fixado requer brigas para poder seguir em frente? "Minha mãe me disse que tinha uma alma de camaleão, nada de bússola moral apontando para o norte. Nada de personalidade fixa. Apenas uma determinação interna que era tão grande e oscilante quanto o oceano."¹

E imagens se apresentam a nós: o jovem com sua obsessão por liberdade e o velho com as memórias que o sustentam. Na flexibilidade da dança das águas, ancorar em algum ponto ou ir para a terra em busca de tranquilidade? Ou a saída para situa-se nas estrelas, no céu? Procurar o que e quem se quer é o que faz com que nos locomovemos? E o que faz uma pessoa não querer ancorar-se em algum lugar? Ou melhor, o que faz uma pessoa ancorar-se em um lugar? Uma oportunidade? Um emprego? Talvez a resposta seja aquilo que sempre nos mantem em movimento, o desejo. Desejo de amar e ser amado? E quando o desejo requer passagens, demanda viagens, partidas e chegadas, por não estar perto? Ancorar-se é uma prova de disponibilidade para amar?

Entre vivido e o vivo, não importa aonde nos direcionarmos levaremos conosco nossas bagagens. De sujar a lavar, algumas peças vão ficando velhas. De algumas, precisamos nos desfazer. Uma bagagem não comporta uma vida, e desfazer-se de algumas coisas é necessário, mesmo que fiquemos sempre em um mesmo lugar.

E se não se trata de terra ou de água, mas do fogo? Do fogo que levamos a cada experiência. Do fogo que cada experiência pode nos trazer.

1.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

sobre como conduzir sua vida utilizando um código moral, a bíblia.

Consultório bíblico

extraído de "Ostra Feliz não Faz Pérola", de Rubem Alves, p. 214.

Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22. Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever: “Querida Dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida, eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final... Mas, de qualquer forma necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

Gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

O livro de Levítico 25:44, estabelece que posso possuir escravos tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?

Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levítico 18:19, 20:18, etc.). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não?

Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas. Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

No livro de Levítico, 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% pra que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que será me permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipo diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixar de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14). Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável.”

vida de paz.

''Quero uma vida de paz. Sem euforia nem tristeza. Ali, na linha do meio. Os momentos de euforia serviram para saber que são uma delícia, mas que geram tristeza depois. E, se você quiser essa euforia de novo, ela não vai existir constantemente. Então, você vai viver frustrada por não ter. Para ser feliz, não precisa inventar. Basta ser o mais honesta possível com as pessoas e com você mesma."

Deborah Secco em entrevista para a Quem, em 10/07/2008.

sábado, 5 de março de 2011

sobre chaves e fechaduras.

Dias desses me peguei pensando nas chaves que ficam na minha estante. Desde que troquei a fechadura, elas se transformaram em um objeto sem utilidade. Mesmo assim, hesito em simplesmente jogá-las fora. No entanto, fico me perguntando sobre a utilidade delas e do espaço que elas ocupam na minha estante. O que se faz com uma chave que não tem mais utilidade?

A referência às chaves me fez pensar nas pessoas que já passaram pela minha vida, e que uma das coisas que temos em comum atualmente somente é um passado. Onde foi que a coisa desandou? Onde foi que nos desencontramos? Nada foi do jeito que já foi um dia. A única constante da vida é que estamos em constante movimento. Viver é modificar-se, e isso ocorre o tempo inteiro. Eu mudo, tu mudas, nós mudamos... Em um segundo, uma molécula rompe uma ligação, e se transforma... E um átomo encontra outro para fazer outra ligação, quem sabe até mais forte!

E o que se faz com o que se passou? Com quem passou? E quantas vezes buscamos quem éramos quando a ligação era com um átomo, e não com outro? Perguntas, perguntas... As respostas são muitas e podem variar de um extremo a outro. Talvez o que nos seja possível é criar novos sentidos para esses afetos. No caso das chaves, poderíamos pintá-las com uma outra cor, criando um artefato de decoração. Ou simplesmente jogá-las fora?

E sei que de nada adianta ficar preso às chaves sem utilidade. Para abrir novas portas, é necessário novas chaves. Para garantir a segurança, é necessário trocar a fechadura. Para avançar, tem que se abrir mão de algumas coisas. Mesmo trocando algumas chaves e fechaduras durante uma mudança, a porta daquele armário continuará sendo a mesma. Seja em uma casa, ou em outra.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

viver e escrever.

Sei que tenho postado pouco. Praticamente nem venho mais aqui. Sentir a distância entre a escrita e o vivido. E o peso de cada um...
“Escrever é uma questão de devir, sempre inacabado, sempre em vias de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de vida que atravessa o vivível e o vivido”. (Gilles Deleuze)
Continuo escrevendo. Dessa vez, as páginas da minha vida, o que difere muito da escrita que ganha(va) forma aqui. Em breve, volto. Porque quando se para, é para pegar mais fôlego...

domingo, 23 de janeiro de 2011

a Universidade, um lugar de passagem.

Ontem saiu o listão da nossa amada UFRGS. Semana que vem vou a uma colação de grau. Início e fim de um ciclo. Falarei do único lugar que me é possível, o meu. Entre a eira e a beira. Olho para frente e vejo caminhos possíveis. Olho para trás e vejo passos de uma caminhada.

Entrar em uma Universidade é uma das experiências mais fantásticas que podemos desfrutar. Talvez por isso tenha se instituido o trote, um rito de entrada, um batismo. No início da minha graduação, um amigo falou que uma amiga dele já formada havia dito que a faculdade vai mudar a tua vida (no caso, a vida dele). Hoje, com a possibilidade de me calcar em alguns autores, busco Foucault que nos define que a experiência é algo da qual saímos transformados. É impossível não se afetar por nada durante o curso de graduação. Pode-se entrar um, e sair outro totalmente diferente.

As experimentações: as aulas, os xérox, os restaurantes universitários, os bares, os colegas e professores, os amigos, os trabalhos, as provas, os conceitos, as festas, os porres, movimentos estudantis, bolsas de iniciação, estágios, formas de se relacionar, formas de viver... Tudo se encontrando e tecendo o que é vivido.

A faculdade marca um momento do processo que é virar "gente grande", adulto. Nela, aprendem-se técnicas a serem postas em práticas no exercício profissional. Acaba a brincadeira do colégio, e a preparação para algo que um dia irá acontecer, o vestibular. Pode-se dela perder a extrema dependência dos pais. O tempo inteiro estamos em processo de aprendizado para algo que fará a diferença em nossa vida, seja no sentido técnico, seja no sentido de utilidade pessoal (como essas coisas fossem possíveis de serem totalmente dissociadas!). Inicia-se um campo de batalha, o mercado profissional. Nossa inserção nele, como vamos lidar com ele, o que ele espera da gente, o que esperamos dele... Questões que vão nos acompanhando durante a vida.

Por isso, ser estudante universitário é viver dentro de um turbilhão de pensamentos e de sentimentos. É tudo ao mesmo tempo agora. De tão intenso, sem vírgulas. De tão intenso, vai imprimindo suas marcas em nós, na medida em que permitimos a forma como isso acontecer. Enquanto escrevia ouvia Maysa. Porém, é nas palavras da Pitty que encontro o que desejo para os universitários ingressantes, os que continuam na luta, e os egressos: pense, fale, compre, beba, leia, vote, não se esqueça, use, seja, ouça, diga, tenha, more, gaste e VIVA!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

vida.



para terminar um ano. para começar um ano.

fé. porque a gente precisa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

sexta-feira a tarde.

livros espalhados pela mesa. todos técnicos. e aquela vontade imensa de ler livros que trouxessem o que tanto prescindia. há muito tempo perdeu o contato com a poesia. e sente falta, tanta. mas prossegue: ouvindo alanis, saia espalhada pela superfície do chão, deitada e refletindo sobre a vida e sobre o que é viver. unha descascada, não ligando para comentários de puta pobre. na boca, aquele hálito de café. recem havia tomado um, ainda que fosse seis horas da tarde, e segundo recomendações dos médicos, ingerir café após esse horário provoca insônia. não interessa, nem importa. na gaveta, rivotril, juntamente com seu habitual prozac. dormir não seria seu problema hoje. ainda mais que havia combinado de sair com suas amigas, e depois nada mais saberia. encontraria paulo, mas não sabia o que realmente estava sentindo e se essa era sua vontade. desejo, necessidade.... amor, falta dele! e um vazio imenso... que não mais angustia como outrora angustiou. coisas não resolvidas, palavras por dizer, amores por viver. ela percebia e sentia tudo, e não sentia mais a necessidade de contar para um terceiro. afinal,

domingo, 19 de setembro de 2010

uma mão na cintura.

porque de repente me deu vontade de dizer não. e deu vontade de dizer sim. me embaralhei como tivesse que ser só uma coisa, mas não. tenho em mim um mundo inteiro. de amores e dissabores. que resultam nessa amargura. quisera eu poder te dizer tudo o que eu sei. e extrair toda essa raiva do meu coração, batendo-te na cara. mas me recuso a fazer isso. pois sei que a vida vai te dar os tapas que tanto desejo dar, sem que seja necessária a minha intervenção para esse fato acontecer.
e sei que para que tu um dia me encontres, se assim o desejar, é necessário todo um processo para chegar ao momento em que possivelmente nós dois nos uniremos. mas sigo. caminhando. não mais com aquela pressa que me era característica; porque cansei. vieram, me pegaram, me deixaram, me abandonaram. depois me tocaram. me senti viva. tanta frieza nesse cotidiano que uma simples mão na minha cintura foi capaz de despertar o que estava reprimido nas profundezas. e me deu vontade de tentar tudo novamente. entregar-se como nunca fiz antes. mas não foi só uma mão na cintura.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

tempo [e espaço] que não volta.

Ontem as aulas reiniciaram. E eu me dei conta do quão mágico é estar na faculdade.
Aulas, conversas, ensino, bobagens, pesquisa, dores, extensão, desamores, conhecimentos, decepções... Amigos, colegas, professores... E sim, pessoas chatas e insuportáveis também, porque é da vida a presença delas aonde quer que formos. E é tão bom estar solteiro, se iludir e se decepcionar, ter milhões de trabalhos a fazer, ouvir sempre os mesmos discursinhos, ter colegas para dividir as angústias. E reclamar MUITO disso tudo, sabe? Que sempre tá ruim, pode piorar, que isso e que aquilo. A gente fode, mas se diverte - clichêzão, mas que se aplica a esse caso.
Não quero me formar, embora esteja correndo em um caminho oposto a essa afirmação.

No dia da formatura, faço birra e digo: Não quero mais brincar!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

porque metade de mim é amor e a outra metade também.

porque eu precisava compartilhar esse trecho com vocês. ele fala, grita, berra! e enquanto eu não consigo escrever o que prescindo, esse texto fala por mim.

24 de junho
Agora é noite, caro diário, e estou no terraço fora de casa observando o mar.

Está tudo tão calmo, quieto, suave; o calor atenua as ondas e sinto seu rumor distante, pacífico e delicado... A lua está um pouco escondida e parece me observar com um olhar de compaixão e indulgência.
Pergunto a ela o que devo fazer.
Ela me diz que é difícil extrair as incrustações do coração.
O meu coração... Eu não me lembrava que tinha um. Talvez nunca tenha sabido.

Uma cena comovente no cinema nunca me comoveu, uma canção intensa nunca me emocionou e no amor eu sempre acreditei pela metade, considerando que era impossível conhecê-lo de verdade. Mas eu nunca fui cínica, isso não. Simplesmente ninguém nunca me ensinou a expressar o amor que eu guardava dentro de mim, escondido, fechado para qualquer um. Mas ele estava em algum lugar, era só desentocálo... E eu procurei por ele projetando o meu desejo em um universo do qual o amor estava banido; e ninguém, ninguém mesmo, barrou minha passagem dizendo: "Não, menina, daqui não se pode passar."

E meu coração ficou trancafiado em uma cela gelada, e era perigoso destruí-la de um só golpe: o coração ficaria danificado para sempre.

Mas depois veio o sol, não esse sol siciliano que queima, que cospe fogo, que cria incêndios, mas um sol suave, discreto, generoso, que derrete o gelo devagar, evitando assim que a minha alma árida se inunde de repente.

No começo me pareceu que era obrigatório perguntar a ele quando é que a gente ia fazer amor, mas depois, no momento em que estava para perguntar, mordi os lábios. Ele entendeu que alguma coisa não andava bem e perguntou:
- O que houve, Melissa? - Ele me chama pelo meu nome, eu sou a pessoa, a
essência, não o objeto e o corpo.
Sacudi a cabeça:
- Nada, Claudio, nada mesmo.
Ele pegou a minha mão e a apoiou em seu peito.
Tomei fôlego e balbuciei:
- Bem, eu estava me perguntando quando é que você ia querer fazer amor...
Ele ficou em silêncio e eu morta de vergonha, sentindo a cara pegar fogo.
- Não, Melissa; não, tesouro... Não sou eu quem vai decidir quando é que a gente vai transar, a gente vai resolver junto, se e quando. Mas vamos ser sempre eu e você, juntos. Ele sorriu.
Eu olhava para ele estupefata e ele entendeu que meu olhar perdido era um pedido para que continuasse.
Porque, olha só... quando duas pessoas se unem, é o ápice da espiritualidade, e isso só aqueles que amam alcançam. É como se um turbilhão envolvesse os corpos e então nenhum dos dois é mais ele mesmo, um está dentro do outro da forma mais íntima, mais interior, mais bonita.

Ainda mais espantada, perguntei o que ele queria dizer com aquilo.
- Que eu te amo, Melissa - respondeu ele.
Por que esse homem conhece tão bem aquilo que para mim parecia até poucos dias atrás impossível de encontrar? Por que a vida me reservou até agora só maldade, sujeira, brutalidade? Esse ser extraordinário pode me estender a mão e me tirar da cova estreita e malcheirosa onde me escondi amedrontada... Lua, você acha que ele consegue?

As incrustações são difíceis de se tirar do coração. Mas talvez ele possa pulsar tanto que acabe rompendo em mil pedacinhos a couraça que o prende.

Retirado de 100 Escovadas Antes de Ir Para a Cama - Melissa Panarello.