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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

porque metade de mim é amor e a outra metade também.

porque eu precisava compartilhar esse trecho com vocês. ele fala, grita, berra! e enquanto eu não consigo escrever o que prescindo, esse texto fala por mim.

24 de junho
Agora é noite, caro diário, e estou no terraço fora de casa observando o mar.

Está tudo tão calmo, quieto, suave; o calor atenua as ondas e sinto seu rumor distante, pacífico e delicado... A lua está um pouco escondida e parece me observar com um olhar de compaixão e indulgência.
Pergunto a ela o que devo fazer.
Ela me diz que é difícil extrair as incrustações do coração.
O meu coração... Eu não me lembrava que tinha um. Talvez nunca tenha sabido.

Uma cena comovente no cinema nunca me comoveu, uma canção intensa nunca me emocionou e no amor eu sempre acreditei pela metade, considerando que era impossível conhecê-lo de verdade. Mas eu nunca fui cínica, isso não. Simplesmente ninguém nunca me ensinou a expressar o amor que eu guardava dentro de mim, escondido, fechado para qualquer um. Mas ele estava em algum lugar, era só desentocálo... E eu procurei por ele projetando o meu desejo em um universo do qual o amor estava banido; e ninguém, ninguém mesmo, barrou minha passagem dizendo: "Não, menina, daqui não se pode passar."

E meu coração ficou trancafiado em uma cela gelada, e era perigoso destruí-la de um só golpe: o coração ficaria danificado para sempre.

Mas depois veio o sol, não esse sol siciliano que queima, que cospe fogo, que cria incêndios, mas um sol suave, discreto, generoso, que derrete o gelo devagar, evitando assim que a minha alma árida se inunde de repente.

No começo me pareceu que era obrigatório perguntar a ele quando é que a gente ia fazer amor, mas depois, no momento em que estava para perguntar, mordi os lábios. Ele entendeu que alguma coisa não andava bem e perguntou:
- O que houve, Melissa? - Ele me chama pelo meu nome, eu sou a pessoa, a
essência, não o objeto e o corpo.
Sacudi a cabeça:
- Nada, Claudio, nada mesmo.
Ele pegou a minha mão e a apoiou em seu peito.
Tomei fôlego e balbuciei:
- Bem, eu estava me perguntando quando é que você ia querer fazer amor...
Ele ficou em silêncio e eu morta de vergonha, sentindo a cara pegar fogo.
- Não, Melissa; não, tesouro... Não sou eu quem vai decidir quando é que a gente vai transar, a gente vai resolver junto, se e quando. Mas vamos ser sempre eu e você, juntos. Ele sorriu.
Eu olhava para ele estupefata e ele entendeu que meu olhar perdido era um pedido para que continuasse.
Porque, olha só... quando duas pessoas se unem, é o ápice da espiritualidade, e isso só aqueles que amam alcançam. É como se um turbilhão envolvesse os corpos e então nenhum dos dois é mais ele mesmo, um está dentro do outro da forma mais íntima, mais interior, mais bonita.

Ainda mais espantada, perguntei o que ele queria dizer com aquilo.
- Que eu te amo, Melissa - respondeu ele.
Por que esse homem conhece tão bem aquilo que para mim parecia até poucos dias atrás impossível de encontrar? Por que a vida me reservou até agora só maldade, sujeira, brutalidade? Esse ser extraordinário pode me estender a mão e me tirar da cova estreita e malcheirosa onde me escondi amedrontada... Lua, você acha que ele consegue?

As incrustações são difíceis de se tirar do coração. Mas talvez ele possa pulsar tanto que acabe rompendo em mil pedacinhos a couraça que o prende.

Retirado de 100 Escovadas Antes de Ir Para a Cama - Melissa Panarello.

domingo, 11 de julho de 2010

ambivalências.

porque eu me li ali, nessas palavras.
"E agora eu quero essa outra vida, não importa quanto tempo seja preciso, agora eu quero alguém que se interesse por Melissa. A solidão talvez esteja me destruindo, mas já não me dá medo. Eu sou a melhor amiga de mim mesma, eu nunca iria me trair, me abandonar. Mas talvez me machucasse, me machucar talvez sim. E não porque isso me dê prazer, mas porque quero me punir de alguma maneira. Mas como é que faço para me amar e me punir ao mesmo tempo? É uma contradição, diário, eu sei. Mas nunca o amor e o ódio estiveram tão pertos, tão cúmplices, tão dentro de mim."
Melissa Panarello. 100 escovadas antes de ir para a cama. Página 37

domingo, 20 de junho de 2010

A agonia de Sex and the City

Adaptação do seriado para o cinema trai o vigor original e naufraga nos clichês

HADLEY FREEMAN | The Guardian
Tradução: Fernanda Pandolfi



Eu não estou pedindo muito. Não quero me desesperar com a crescente incapacidade de Hollywood de colocar mulheres em filmes de comédia em outro papel a não ser o de meninas com seios fartos obcecadas por si mesmas. E eu não quero, na maioria das vezes, perder duas horas assistindo a sonhos e lembranças da minha juventude sendo pisoteados em uma humilhante paródia de si mesma. Isso é pedir demais? Parece que sim, a julgar por Sex and the City 2 um clichê materialista, misógino, borderline racista com franjas cor-de-rosa.

O seriado era fantástico: inteligente, engraçado, acolhedor e sagaz, um apelo diferente do de “mulheres de meia-idade transando constrangedoramente com vários parceiros inadequados”, clichê que outros escritores usavam. O livro original de Candace Bushnell, no qual o seriado foi baseado, era bom, mas o seriado era ótimo. Sim, havia sexo e compras. Mas ao contrário dos filmes, não eram as únicas abordagens, e não era só com isso que as personagens se importavam. Mas agora, traiçoeiramente, os filmes confirmam todos os piores (e errados) pressupostos (a maioria de homens) feitos sobre o seriado e sua audiência (a maioria de mulheres).

No seriado de TV, as mulheres reprimiam Samantha por suas tentativas malucas e ocasionais para manter a juventude, e ela sempre aparecia falante e corpulenta, amando sua aparência. No segundo filme, ela engole 44 pílulas cada manhã para “fazer com que meu corpo pense que é mais jovem”.

A série de TV foi muito corretamente criticada por raramente ter personagens que não fossem brancos. A resposta nervosa do primeiro filme a essa situação foi incluir uma personagem negra, mas como assistente de Carrie, representada por Jennifer Hudson, que é submissamente grata pelas peças de estilistas famosos rejeitadas do guarda-roupa de Carrie, e então, no final, retorna ao Sul, onde as pessoas negras pertencem. O segundo filme vai ainda mais longe, porque os personagens são enviados a Abu Dhabi. Nunca, desde As Mil e Uma Noites, o orientalismo foi tratado tão ironicamente. Todos os homens do Oriente Médio são filmados em uma luz brilhante com uma música jingle jangle, para caso você não tenha entendido que essas pessoas morenas são exóticas e diferentes.

Em ambos os filmes a mensagem é: mulheres desejam um anel de noivado a todo custo; no seriado, Carrie rejeitou Aidan, que era perfeito em tantos quesitos, porque ela não pôde, não importa o quanto tentasse, se convencer a casar com ele. A diferença de como os empregos das mulheres são tratados no seriado e no filme talvez seja o melhor exemplo do quanto o seriado afundou.

Na série, repetidamente víamos Miranda trabalhando em seu escritório como uma das sócias em uma empresa de advocacia e, sim, o emprego é difícil e consome tempo, mas ela o adora – e o seu sucesso é um distintivo de orgulho. O mesmo acontece com Samantha em sua profissão de Relações Públicas. Até Carrie, que trabalha como uma colunista de jornal, um emprego que eu posso pessoalmente assegurar que não é fisicamente compensador, demonstra verdadeira satisfação com a sua profissão, até o ponto em que se disponibiliza à demissão, na última série, por causa de seu namorado russo – já é um mau sinal. Também tem um episódio inteiro sobre a dificuldade das amigas em aceitarem a decisão de Charlotte de deixar de trabalhar quando se casa, e namorados que não levam o trabalho a sério são vistos como sanguessugas imaturos. No primeiro filme, não somente nunca vemos Miranda trabalhando, mas seu emprego é a razão para a infidelidade de Steve, porque ele não estava recebendo atenção o suficiente de sua esposa que estava trabalhando para sustentá-lo. No segundo filme, adivinha? Ela deixa o escritório de advocacia!

Então, vem a moda. As amigas sempre usaram roupas de estilistas famosos no seriado, mas os filmes são um pouco mais do que duas horas de propagandas, ressaltando o fato de que Parker é atualmente a diretora criativa da Halston Heritage, uma marca que aparece bastante no segundo filme. Se os filmes mataram o sonho Sex and the City, então, em retrospecto, sua agonia pode ser vista na última série, insistindo que Carrie tem que ficar junto com Mr. Big no final sem se importar que isso seja totalmente fora do perfil de ambos os personagens, sem se importar que isso vá contra tudo o que o seriado ditava sobre mulheres não precisarem ficar com homens que fazem com que se sintam como lixo. Estranhamente, enquanto o seriado se tornava mais bem-sucedido, essas abordagens se tornavam mais convencionais, perdendo a identidade.

A morte de Sex and the City não é só vergonhosa para as fãs, mas para todas as mulheres com maiores expectativas sobre filmes com o tema “mulheres” que vão além de um resumo de clichês da imprensa popular.

Carrie, você pode ter comprado muitos sapatos nesses filmes. Mas, infelizmente, você se vendeu.

Retirado do Caderno Donna do Jornal Zero Hora. Link aqui!

sábado, 19 de junho de 2010

sabedoria de mary alice.


Nesse drama infinito que chamamos de vida, todos temos nossos papéis. Alguns têm papéis românticos. Outros acabam sendo as vítimas. E alguns proporcionam cenas de comédia. Mas para que o drama seja mesmo convincente, é preciso que haja um herói e um vilão.
(Desperate Housewives, Season 6, Episode 14)

Quer saber? Bom mesmo é se dar conta que não existe vilão, nem herói. Somos as duas coisas, ao mesmo tempo. Somos humanos, com toda complexidade que isso abarca. Herói ou vilão? Heróis E vilões!

domingo, 14 de março de 2010

Aos apaixonados - Rubem Alves

Quero compartilhar essa excelente crônica do Rubem Alves. Para quem tem medo de relacionamentos, vale a leitura. Para quem não tem, também.

Aos apaixonados - Rubem Alves

Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que servirá para nada. É inútil falar aos apaixonados. Os apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão, experiência insuperável de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma experiência insuperável de prazer e alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razão. Todo apaixonado é tolo. Pode ser que ele escute a fala da razão. Escuta mas não acredita. Diz: "O meu caso é diferente!" Tolo mesmo é quem tenta argumentar com os apaixonados.

Começo minha inútil meditação com um verso terrível de T. S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: "...e livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita".

Todo mundo sabe que a paixão não satisfeita dói. Mas poucos sabem que a paixão só existe se não for satisfeita. A paixão é um desejo de posse que, para existir, não pode se realizar. Como a fome: depois do almoço a fome acaba...

Paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto amado. Não se trata de ausência física, o objeto amado distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de saudade. Saudade tem cura. A saudade é curada quando o objeto volta. A dor da paixão é diferente. Não tem cura. A saudade do objeto amado, mesmo quando ele está presente, é o perfume característico da paixão. Cassiano Ricardo sabia disso e escreveu:

"Por que tenho saudade
de você, no retrato, ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove, se você mesma está presente?"

Que coisa mais esquisita! Como pode ser isso? Como pode se sentir saudade de algo que está presente? A resposta é simples: a gente sente saudade de uma pessoa presente quando ela está se despedindo. Cecília Meireles, desenhando sua avó morta, a quem ela muito amava, disse: "Tu eras uma ausência que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se." Dirão: "É natural. A avó já era velhinha..." É verdade. Mas o que caracteriza o olhar apaixonado é que ele percebe, no rosto da pessoa amada, essa ausência que se anuncia e essa despedida pronta a cumprir-se. O apaixonado pensa que sua paixão tem a ver com o objeto. Ele não sabe que foi o seu olhar que o tornou encantado. Os poetas são pessoas apaixonadas pela vida. E a sua paixão faz com que ela, a vida, apareça sempre banhada por uma luz crepuscular. Rilke perguntava, sem esperanças de resposta: "Quem foi que assim nos fascinou para que tivéssemos um ar de despedida em tudo que fazemos?" É o olhar da pessoa apaixonada que cria a imagem do objeto da paixão. É sobre Cecília Meireles que o Drummond escreve. Mas sua descrição, eu creio, se aplicaria a todos os objetos da paixão:

Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços de sua presença entre nós, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos. Distância, exílio e viagem transpareciam no sorriso benevolente... que confirmava a irrealidade do indivíduo.

A dor da paixão não satisfeita é essa: o apaixonado deseja possuir o objeto do seu amor, mas ele escapa sempre. Por isso ele sofre. Movido pela dor, quer possuí-lo. Não sabe que, para que sua paixão continue a existir, é preciso que ele continue escapando sempre. A paixão só ama objetos livres como os pássaros em vôo.

"...e da dor muito maior da paixão satisfeita".

A dor da paixão não satisfeita é iluminada por uma alegria. O apaixonado vive na presença de que um dia ele possuirá o objeto da sua paixão. Mas a "dor muito maior" da paixão satisfeita não tem mais esperanças. O objeto se desfez. Ela vive na tristeza do objeto perdido.

Escrevi uma estória sobre isso. A Menina era apaixonada pelo Pássaro Encantado. Mas ela sofria porque o Pássaro era livre. O Pássaro Encantado era sempre uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se. O Pássaro lhe disse que era preciso que fosse assim, para que eles continuassem apaixonados. Ele sabia que a paixão ama pássaros em vôo. Mas a Menina não acreditou. Prendeu-o numa gaiola.

Gaiola? Há as feitas com ferro e cadeados. Mas as mais sutis são feitas com desejos.

Esquisito o que vou dizer: a alma é uma biblioteca. Nela se encontram as estórias que amamos. Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, O paciente inglês, As pontes de Madison, Amor nos tempos do cólera, A menina e o pássaro encantado. As estórias que amamos revelam a forma do nosso desejo. Delas, escolhemos uma. É a nossa gaiola. Gaiola na mão, saímos pela vida à procura do nosso Pássaro. Quando imaginamos havê-lo encontrado – que felicidade! Ficará feliz em nossa gaiola. Será o amante da nossa estória de amor: eu para você, você para mim... Nós o colocamos lá dentro e pedimos que nos cante canções de amor.

Acontece que o Pássaro também tinha a sua estória. E era outra. Todo Pássaro deseja voar. Ele bate suas asas contra as grades, suas penas perdem as cores e o seu canto se transforma em choro. E, de repente, ele se transforma. Não mais o reconhecemos. É um outro. Essa é a razão por que a dor da paixão satisfeita é muito maior.

Contada assim, a estória parece ter um vilão e uma vítima. A verdade é que os dois são vilões, os dois são vítimas. O desejo da gente é sempre engaiolar o outro e levá-lo pelos caminhos que são nossos. Isso vale para tudo: marido-mulher, pai-filha, mãe-filho, patrão-empregado, professor-aluno... Não admira que Sartre tenha dito que "o inferno é o outro".

Não haverá uma saída. Lembro-me de um pequeno poema de Pearls que sugere a possibilidade de uma relação sem gaiolas:

Eu sou eu.
Você é você.
Eu não estou neste mundo para atender
às suas expectativas.
E você não está neste mundo para atender
às minhas expectativas.
Eu faço a minha coisa.
Você faz a sua.
E quando nos encontramos,
é muito bom.

Rubem Alves, O amor que acende a lua, 1999.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Vai passar, tu sabes que vai passar.

Sou do tipo de pessoa que acha que o que é bom deve ser compartilhado. Esse texto é ideal para aqueles momentos em que tudo que a gente precisa é de um ombro amigo, uma vez que não há o que fazer a não ser esperar. Infelizmente o mundo não anda no nosso ritmo. Mas às vezes, a gente não anda no ritmo do mundo.

Claro que o texto tinha que ser do Caio Fernando Abreu. Ia grifar uns trechos, mas fiquei com preguiça. Talvez o faça depois.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

o jeito certo

Às vezes, a gente encontra algo que diz tanto. Tem coisas que a gente já sabe, mas precisa constantemente que os outros nos lembrem. Li, e somente sorri.
"Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito." Caio Fernando Abreu. O essencial da década de 1980.